Hospitalidade Alpiarcense – Hãn ?! Repita por favor…

by barbeirodapatracola


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  Texto: Isabel Braga  e  Fotografias: Ana Braga do blog O Corvo

“Esta é a incrível história de dois estrangeiros que falam mal português e viveram seis meses em Alpiarça, pequena vila perdida na lezíria do Tejo. Queriam mostrar a sua solidariedade com Portugal, mas não conseguiram comunicar com os seus anfitriões.

A viagem que o Corvo propõe não é grande, leva-nos até Alpiarça, concelho com menos de oito mil habitantes, a escassos cem quilómetros de Lisboa. Foi aí que chegaram, no Outono passado, três estrangeiros, Martin Kramer, alemão, e Masha Katric, ucraniana, acompanhados da filha, Outubrinka, um ano acabado de fazer.

Martin parece mais novo do que os 42 anos que diz ter, graças ao ar angelical, transmitido pelos olhos azuis, cabelo alourado aos caracóis e voz suave. Mostra-se conversador e afável, mais comunicativo do que Masha, de aparência um tanto severa, vestida sem a menor concessão à moda: camisola larga de lã, saia rodada a tapar os joelhos, peúgas e sapatos grossos.

Depois de se falar com ela, fica a saber-se que tem como figura modelar, inspiradora até, uma avó de 93 anos, ainda viva em Kiev, descrita pela neta como uma “bolchevique da velha guarda ” que, durante a II Guerra Mundial, à frente de um pelotão de 25 mulheres, apontava aos aviões nazis potentes projectores de luz para que fossem alvejados pela artilharia russa.

A pequena Outubrinka, por sua vez, corresponde ao estereotipo de uma criança do Norte da Europa, pele branca e cabelo muito louro. Quase nunca chora, nem mesmo quando quer ser amamentada pela mãe, o que pode suceder mesmo depois de ter comido uma boa porção de bacalhau com grão. Kettie, como os pais lhe chamam, adora a comida portuguesa.

Martin, que diz ter obtido um diploma de artes plásticas numa “academia de belas-artes” de Florença, e apresenta um impressionante currículo de participações em acções de protesto no mundo inteiro contra a opressão capitalista, explica que ele e Masha abandonaram as suas ocupações em Kiev – onde ele tem estúdio de pintor – para se juntarem “à luta popular portuguesa”. Tudo isto porque um amigo alemão, economista do Partido Social Democrata (SPD) , lhe relatara uma conversa que tivera com o ministro das finanças do país, Wolfgang Shauble, aquele homem pouco simpático que se desloca em cadeira de rodas.

Segundo Martin, o amigo teria perguntado a Shauble por que motivo a Alemanha atirava a Portugal “uma bóia de salvação de chumbo”. Ao que este respondera que estava em curso como que uma “guerra fria” entre Portugal e a Alemanha, e que “se a população portuguesa ameaçava a Alemanha”, a Alemanha ripostava e estava decidida a “vencer”. Por estranhos que pareçam os termos desta conversa, o certo é que Martin garante que existiu e propõe-se até dizer o nome do amigo que participou nela, sugestão de que o Corvo prescindiu.

O relato continua a ser de Martin: foi na sequência do que ouvira ao amigo que entendeu que devia mostrar aos portugueses “uma compreensão intransigentemente prática da solidariedade”. Decidiu por isso viajar até cá e pintar um mural de apoio aos sofrimentos do país, tal como já fizera em muitos outros países da Europa, como se pode ler no portfólio que ofereceu ao Corvo.

O passo seguinte de Martin e Masha foi escrever a “centenas” de instituições portuguesas, câmaras municipais, universidades e fundações, a oferecer-se para pintar o referido mural. Apenas uma lhes respondeu, a Câmara Municipal de Alpiarça, de maioria CDU, facto que muito agradou aos dois artistas, que se dizem comunistas convictos, fiéis aos ideais que nortearam a revolução russa de Outubro de 1917, a quem prestaram homenagem através do nome que puseram à filha.

Bastante organizado, Martin informou-se sobre a cultura portuguesa e encontrou um mote para o fresco revolucionário que haveria de deixar em Alpiarça, o romance “Levantados do Chão”, de José Saramago.

Mas, na vila ribatejana, tudo correu mal, logo desde o início. Conta ele que  pediu à Câmara Municipal, a sua anfitriã oficial, que lhes cedesse uma superfície de cal para pintar, pois a cal é a base tradicional da pintura a fresco, na qual se especializou. “Há muitos muros caiados em Alpiarça, mas sempre que escolhia um, as pessoas da Câmara diziam que ia ser demolido em breve”.

Em vez de cal, ao fim de três meses de espera, obteve cimento, a parede gigantesca do Pavilhão Municipal de Exposições, uma construção inóspita e tosca, isolada da povoação.  Não era a base ideal para o mural solidário que tinham em mente, mas Martin e Masha deitaram mãos ao trabalho, fazendo maquetes, montando andaimes.

Os meses de inactividade foram férteis em incidentes que em nada contribuíram para estreitar os laços de amizade entre os artistas estrangeiros e os alpiarcences, pelo contrário. Ouvindo Martin falar, não se duvida da revolta que ele sente e que algo aconteceu, mas, ao mesmo tempo, fica a impressão de que não pode ter sido exactamente como ele conta. A verdade é um lugar difícil.

Por exemplo, Martin diz ter sido intimidado por um grupo de caçadores, que se juntaram num piquenique junto ao pavilhão onde trabalhava, “fazendo roncar os motores dos seus jipes” e assando carne, sem lhe oferecer nada para comer, mas dando comida a “um cão moribundo”. Conta que o município ignorou, entre outras, uma sugestão sua, convidar “feministas de Lisboa” para falarem sobre violência doméstica, conceito no qual ele entende que se devem incluir as “vozes fálicas dos machos portugueses”. Considerou-se alvo de uma campanha de difamação, em blogues locais, que o acusavam de atentar contra o património do concelho.

 Diz que lhe foram recusadas, pelo maior supermercado da vila, caixas de cartão destinadas ao lixo. E queixa-se que a Câmara Municipal lhe prometera uma ajuda financeira para comprar gás que ele nunca recebeu, pois não conseguiu que lhe dessem facturas do combustível. Até mesmo a escolha dos excertos de “Levantados do Chão” a figurar no mural foram um pomo de discórdia entre Martin e os seus anfitriões. Finalmente, a acusação mais grave: o artista diz que três indivíduos invadiram o seu local de trabalho e tentaram agredi-lo com barras de ferro na manhã de 5 de Março, e que tentou, em vão, apresentar queixa às autoridades.

(continua em baixo)

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 Se Alpiarça não mostrava apreciar grandemente a presença de Martin e Masha, Martin – é sempre ele que fala – também não esconde o mal estar que sentiu na vila e distribui críticas: ao município, ao PCP, ao “culto ao Relvas” que considera existir ali – sendo que o Relvas em causa não é o ministro que recentemente abandonou o Governo, mas o homem que proclamou a República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa em 1910, dono da Casa dos Patudos, ex-libris do património local, que o alemão considera ter sido muito mal recuperada.

Considera absolutamente falso o slogan publicitário que fala de “Alpiarça, vila tranquila”, afirmando que se devia falar antes de uma vila “em depressão” e diz que os estrangeiros são alvo de um “isolamento planificado”. Para o artista alemão, só mesmo a paisagem se aproveita e até essa está em risco. Porquê? “Os ricos alemães planeiam já uma auto-estrada gigante Berlim-Lisboa, a passar mesmo por trás das terras do Relvas”, garante, com grande convicção.

 Apesar dos atritos, Martin e Masha trabalharam arduamente, e, em pouco mais de um mês, deixaram pronto, na ingrata parede de cimento do Pavilhão Municipal de Exposições, um gigantesco e bonito mural de cores alegres. A inauguração solene foi marcada para 16 de Março mas, como seria de prever, não houve festa. Conta quem assistiu: “Foi uma desolação, não apareceu quase ninguém, nem da Câmara Municipal. Parece que o presidente se fez representar por um funcionário subalterno, que ninguém sabia quem era”.

A tristeza e o mau tempo tomavam conta da tarde e da paisagem, onde o mural de Martin e Masha era o único elemento de cor. O que correra tão mal ?

Perante os factos conhecidos, uma explicação parece possível: Martin e Masha falavam mal português, os alpiarcences não dominavam o alemão nem o russo, e isso levou a que o significado exacto das palavras que trocavam se perdesse na tradução, como acontece com os personagens do filme de Sofia Coppola.

A pequena Outubrinka, que ainda não fala, cresceu, engordou, ganhou cores e pareceu feliz durante os seis meses que passou em Alpiarça. No dia da inauguração do mural, corria alegre pelo terreno fronteiro ao pavilhão, sob o olhar preocupado dos pais, receosos de que a erva e as flores que ela arrancava do chão estivessem contaminados por pesticidas.

Quando tudo parecia ir acabar sem brilho nem glória, na tarde da inauguração dos murais, uma mulher idosa pediu a palavra: era D. Lucinda, empregada de limpeza da biblioteca municipal, onde Martin se deslocava praticamente todos os dias para poder utilizar a rede “wireless”. Disse que, em nome da vila, queria dirigir um agradecimento aos artistas mas, uma vez que não sabia falar alemão nem russo, lhes ia cantar a Internacional, o hino do proletariado. Fê-lo, até ao fim, passando do canto à declamação, quando lhe faltou a voz. Foi um agradecimento inesperado e insólito, que dispensou tradução.

Poucos dias depois, Martin e Masha iniciaram o longo caminho de regresso a Kiev, que vão percorrer como vieram, de transportes públicos. Saíram de Alpiarça de autocarro, carregando os seus poucos haveres num carrinho de mão de madeira construído por Martin. Iam contentes por partir, Masha tem muitas saudades da neve. É provável que Alpiarça também tenha gostado de os ver pelas costas, mas isso é algo que o Corvo não pode garantir, uma vez que ficaram sem respostas as perguntas que dirigiu à Câmara Municipal. A solidariedade é, definitivamente, um lugar estranho.

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O mural inspirado na obra de Saramago não teve muitos apreciadores em Alpiarça”


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